O Estudo dos Modelos de Romance em Sociologia

Posted on dezembro 29, 2014

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Comentários sobre as contribuições de Lucien Goldmann

por

Jacob (J.) LumierAutor JLumier2012A

N.B. – Fragmento de  “A Ideologia do Existente” (obra em elaboração).

 

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Podem distinguir os seguintes tipos ou modelos de romance: (a) – o romance com herói problemático individual; (b) – o romance com herói problemático coletivo; (c) – o romance com ausência de sujeito, correspondendo este à literatura de avant-garde.

►Do ponto de vista da teoria psicossociológica, a biografia como elemento composicional se desenvolveu a partir da moralidade das imagens simbólicas ideais do individualismo, formadas historicamente em correspondência com o mercado concorrencial, incluindo as imagens de liberdade, igualdade, propriedade e seus derivados como tolerância, direitos do homem, desenvolvimento da personalidade [1].

Nada obstante, nesse aspecto composicional a biografia tomou a forma do herói problemático, um personagem que por seu pensamento e atitude é vinculado aos valores qualitativos, mas não inteiramente subtraído à existência da mediação degradante, como já mencionado.

Serão das variações na composição da forma da biografia assim verificada que se tirarão os critérios para classificar as modalidades do romance em termos de estrutura do gênero romanesco. Podem distinguir os seguintes tipos ou modelos de romance: (a) – o romance com herói problemático individual; (b) – o romance com herói problemático coletivo; (c) – o romance com ausência de sujeito, correspondendo este à literatura de avant-garde [2].

Note-se que o caráter problemático releva não só da experiência do escritor em face da mediação eticamente degradante, mas da própria contradição interna do individualismo.

Isto é, chama-se crise do individualismo à contradição seguinte: se, por um lado, a afirmação da centralidade e desenvolvimento do indivíduo é posto em si, como valor universal, por outro lado a realidade social da burguesia impõe limitações importantes e peníveis às possibilidades de desenvolvimento dos indivíduos, percebidas como alternativas excludentes e sem saída [3].

Deste ponto de vista, a biografia sob a forma do herói problemático põe em relevo o parentesco do gênero romanesco e da tragédia moderna no teatro de Racine.

Desdobrando-se em torno da tomada de consciência expressa na atitude do herói, pela qual vem a ser afirmado o caráter sem saída de uma situação, deste modo ressentida como trágica em relação a alternativas contraditórias exigidas como absolutas, no teatro de Racine o caráter trágico não é posto somente como algo que se manifesta meramente.

De acordo com Goldmann, o trágico é produzido, assimila um salto, uma passagem de nível na experiência vivida do sujeito, e se afirma a partir de um instante singular em que a tomada de consciência é possível e se viabiliza. Ademais, é preciso ter em conta a razão pela qual a tragédia se configura justamente pelo caráter inteiramente consciente e intelectualizado das alternativas contraditórias e absolutas exigidas. Ou seja, se tais exigências já não podem mais ser exprimidas em termos de desejos ou aspirações, mas unicamente em termos de escolha e ação é porque tais alternativas foram necessariamente e previamente vividas integralmente pelo herói.

Por outras palavras, no instante da tomada de consciência trágica, se o caráter vago, não intelectualizado, puramente vivido e sentido desaparecem, para ser integrado no universo atemporal de clareza absoluta e univocidade da tragédia, é necessário que, antecipadamente, tenha existido realmente o caráter poético incerto de tais aspirações tornadas alternativas absolutas.

Quer dizer, sendo encontrado na biografia individual romanesca, à base da decepção necessária informando a busca do herói, que por isso é problemático, o esquema raciniano da tragédia moderna formula-se pela combinação dos dois níveis acima observados: (a) – a escolha refletida, com tomada de consciência rigorosa, trágica; (b) – os valores “re-sentidos”, as aspirações que precedem imediatamente o nível intelectualizado [4]·.

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Os Níveis de Acessibilidade dos Valores Qualitativos.

Para observar o problema recorrente da acessibilidade dos valores humanos não basta enfocar o engajamento do escritor em dar uma significação à vida, mas é preciso proceder à recuperação dos níveis em que a acessibilidade pode ser distinguida.

►Na teoria psicossociológica o estudo dos modelos ou tipos de estrutura do gênero romanesco pauta-se como disse sobre as atitudes intelectuais dos escritores em face da crise do individualismo. Para observar o problema recorrente da acessibilidade dos valores humanos não basta enfocar o engajamento do escritor em dar uma significação à vida, mas é preciso proceder à recuperação dos níveis em que a acessibilidade pode ser distinguida.

Neste sentido, há que desmontar as diferenciações condensadas entre (a) – o momento fundamental e postulativo da afirmação da capacidade dos homens em elevar-se (a mencionada fé na acessibilidade dos valores humanos [5]); (b) – o momento complementar de compreensão da acessibilidade como valores de uma vida autêntica, isto é, uma vida não regida pela ideologia do existente.

Desta sorte, poderemos notar as seguintes orientações como possibilidades postas diante do escritor para equacionar sua atitude em face da crise do individualismo: (a) – pode afirmar os valores humanos universais, mas admitindo-os como problemáticos [6]; (b) – pode afirmar tais valores em modo positivo como transparentes (por oposição a sua compreensão como problemáticos), mas admitindo-os como gravemente ameaçados; (c) – pode contar sua desilusão ou ausência de fé na capacidade de o homem elevar-se.

Além disso, tendo em vista que se trata da situação dos escritores que pretendiam pôr em obra uma visão individualista com mirada universal mesmo no contexto da crise do individualismo, a teoria psicossociológica fará uma relação das dificuldades antepostas aos mesmos, nos seguintes termos: (a) – a dificuldade levando a negar toda a possibilidade de vida autêntica no mundo; (b) – a dificuldade levando a negar o próprio caráter primordial do indivíduo; (c) – a dificuldade em conciliar a importância da referência ao risco da morte para a consciência individual autêntica, por um lado, e por outro lado a sobrevivência do valor dos projetos e das ações individuais para-além do desaparecimento do indivíduo.

Será pela inclusão dessas três dificuldades, combinadas às demais orientações oferecidas aos escritores no quadro da situação contemplada, que a teoria psicossociológica apreciará e alcançará a formulação de um modelo estrutural operativo de análise para a modalidade privilegiada, ou seja, um modelo de análise para o romance com um herói problemático sendo superado pelo contexto exterior. De acordo com Goldmann, nesse conceito incluem-se o romance cujos personagens são necessariamente homens de ação doentios, como no exemplo dos romances de André Malraux [7].

Com efeito, classificando a modalidade mencionada como romance de transição para a ausência de sujeito, a teoria psicossociológica deixa ver a complexidade do respectivo modelo de estrutura ao assinalar que, ao mesmo tempo, já vigorava a corrente literária levando ao personagem coletivo.

Quer dizer, o romance com “herói superado do exterior” buscava compor o sentido da ação dramática no plano da biografia individual. Porém, sendo por sua vez realisticamente contrastado pelo mundo capitalista em desenvolvimento, que retirava do indivíduo seu valor de individualidade, aquele plano biográfico já se revela insuficiente aos olhos do artista escritor para compor um herói significativo.

Em face dessa insuficiência para figurar no plano da biografia um modelo social de conduta humana, elevado através das imagens-exemplo e problemático, impunha-se ao escritor do romance de transição a exigência realista de figurar um contexto ou ambiência prevalecente envolvendo, condicionando e ultrapassando do exterior ao caráter biográfico como exclusivamente voltado para a busca da elevação individual. Daí a figuração de personagens inconcebíveis sem a sua ação, como em Malraux.

Mas não é tudo. Tendo em vista a elaboração e formulação do referido modelo de romance de transição para a ausência de sujeito, admite-se do ponto de vista histórico ideológico que a figuração dos personagens de ação constitui em verdade uma tentativa de solução para assegurar pela literatura com mirada realista a vida individual significativa.

Por outras palavras, o recurso aos personagens de ação deve ser compreendido como uma tentativa especial que atende a duas condições diferenciais, seguintes: (a) – ser empreendida por um escritor tendo alcançado e já expressado em maneira radical e em nível muito avançado a consciência ética do problema da crise dos valores no individualismo; (b) – ser empreendida por esse escritor consciente como um esforço em busca do fundamento para sua fé na acessibilidade dos valores qualitativos humanos.

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As duas tendências do gênero romanesco: “ausência de sujeito” e “herói coletivo”.

Os personagens do romance de Malraux como protótipos de um romantismo revolucionário, não se questionam a si como suportes desse estilo de vida centrado absolutamente no momento da ação e trazendo-lhes risco de morte.

►Mas não é tudo. Do ponto de vista da mirada realista, como compreensão da crise do individualismo ou limitação à capacidade de o indivíduo elevar-se, a prevalência do ambiente sobre a biografia individual impõe certas características complexas na composição do romance com “herói superado do exterior“.

Acresce que, o fato literário sendo um fato de valor, a teoria psicossociológica guarda uma abordagem de ordem fenomenológica, de tal sorte que o exame da forma romanesca em correlação com o quadro da crise do individualismo moderno na burguesia constitui uma via de introdução para desocultar a redução do pensamento conceitual e, por esta via, chegar à descoberta da estrutura de consciência literária de que depende a consistência da forma romanesca como fato de valor [8].

Desta sorte, observa-se no complexo modelo do romance com “herói superado do exterior” o reflexo das duas tendências do gênero romanesco: uma orientação para o tipo “ausência de sujeito”, tipo este do qual o modelo com “herói superado do exterior” constitui como dissemos uma antecipação, e outra orientação para o tipo “herói coletivo”.

Em fato, o modo de ser inseparável de sua ação aparece para os personagens como a referência natural ao suicídio ou ao risco de morte. Isto porque se trata de personagens exclusivamente orientados para realizar certos fins supostos elevados que, todavia, são postos no mundo exterior e contra os obstáculos.

Ou seja, há uma variante do individualismo, já que a elevação desejada não aparece aos personagens como esforço único dos indivíduos, mas sim através da ação que deste modo é figurada como meio de elevação individual.

Nota-se ademais que a figuração desses personagens sui generis introduz igualmente como característica composicional que o pensamento vem a ser reduzido, sofre suspensão no momento da ação.

Vale dizer, o estilo de vida centrado na ação, na expectativa dessa ação ultrapassar os obstáculos, e na conquista de seus resultados em vista de um fim suposto elevado e obsessivamente desejado no mundo, realizado pelos personagens do romance de Malraux [9] como protótipos de um romantismo revolucionário, resulta precisamente do fato de que eles não pensam nisto, não se questionam a si como suportes desse estilo de vida centrado absolutamente no momento da ação e trazendo-lhes risco de morte [10].

O sociólogo assinala que a suspensão do pensamento, o não-questionamento de si em relação ao estilo de vida suportado, indica certa proximidade ao tipo de romance com herói coletivo. Não que neste a ação seja preponderante ou mistificada como meio para a elevação, mas sim que, ao reduzir o pensamento conceitual, antecipa-se uma qualidade espontânea do estado de aspiração ou de criação coletiva: as afirmações de um sujeito transindividual [11], como verão adiante.

No caso do romance com “herói superado do exterior”, ora em exame, a suspensão do pensamento sobre si em relação ao estilo de vida arriscado para o personagem individual, liga-se à afirmação romântica da própria emergência da ação como meio de elevação, ao seu envolvimento como ação significativa histórica para os personagens, de tal sorte que a estrutura de consciência literária deste tipo de romance sustenta-se justamente pela exclusão recíproca da ação significativa e do risco de morte.

A tomada em consideração da referência ao risco de morte pelos personagens revela-se limitativa no sentido de vinculá-los à pegada da ideologia do existente e desviá-los da obsessão necessária para identificar-se à ação como meio de elevação. Trata-se de uma referência que se faz à morte como fim absoluto da luta por mero prestígio, a morte para o mundo. Daí porque tomar em consideração o risco de morte significa estar sob a ideologia do existente. Os personagens do romantismo revolucionário se caracterizam justamente por situarem-se para-além da pegada da vontade mundana.

Ao pôr em relevo a estrutura de consciência literária, a teoria psicossociológica visa chamar atenção sobre a correlação entre a crise do individualismo moderno na burguesia e a ascensão cultural do par intelectual temático ação/morte à reflexão filosófica do século XX.

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A Consistência da Estrutura Literária.

►Para compreender a consistência da estrutura literária por exclusão recíproca da ação significativa e do risco de morte, deve-se ter em conta a compreensão histórico-filosófica reservando à morte, como presença no pensamento, a atribuição de um efeito retroativo desagregador das significações individuais. Efeito este tanto mais notado quando se trata de todo o valor de uma ação que não tivera outro fundamento senão o indivíduo [12]·.

Com efeito, ao elaborar sobre os romances de Malraux, a teoria psicossociológica visa chamar atenção sobre a correlação entre a crise do individualismo na burguesia e a ascensão cultural do par intelectual temático ação/morte à reflexão filosófica do século XX.

Aliás, no exame histórico deste par temático, sobressaem diferentes formulações conforme se tenha em conta o seguinte: (a) – os esquemas do pensamento cristão à Idade Média; (b) – os esquemas do individualismo moderno; (c) – os do século XX, quando o problema intelectual do fundamento para a afirmação do indivíduo vem a ser formulado.

No esquema do pensamento corrente da Idade Média nota-se que, sendo subordinada à salvação como foco de valores transindividuais, a morte era importante e percebida como um problema porque constituía a referência na qual se afirmava o caráter de existência eterna, marcando para o indivíduo o instante em que iria se decidir “de uma vez por todas” se ele seria eternamente reprovado ou salvo.

Já nas filosofias individualistas, a morte deixa de valer como problema para o pensamento. Os valores individualistas da razão e da experiência permanecem eternos na medida em que haverá sempre indivíduos a perquiri-los realmente, ou os haverá virtualmente com a possibilidade de fazê-lo [13]. Enquanto o indivíduo existe, ele é valor ideal como indivíduo; desde que é morto não existe mais, nem como valor, nem como problema.

No século XX, com a crise dos valores individualistas da razão e da experiência, acontecida na seqüência da supressão do mercado concorrencial da sociedade liberal e caracterizada em literatura pelo declínio do romance tradicional com herói problemático, o problema da morte reaparece. O pensamento conceitual filosófico é confrontado às dificuldades para encontrar fundamento aos valores de afirmação do indivíduo.

Por sua vez, essas dificuldades intelectuais são tanto mais acentuadas quanto (a) – se deve ao próprio individualismo da burguesia ascendente nos séculos modernos a supressão dos mais antigos valores transindividuais constitutivos do caráter de existência eterna; (b) – dificuldade essa potencializada pela própria crise dos valores individualistas da razão e da experiência que viemos de mencionar, já que, por sua vez, estes foram igualmente dotados de alcance eterno na série incontável dos indivíduos.

Desde logo, assinala-se como privilegiada a posição filosófica pascaliana, que se encontra reatualizada através do escrito filosófico de juventude de Georges Lukacs intitulado “Metafísica da Tragédia“, parte da obra “A Alma e as Formas“, datada em 1911 [14].

Quer dizer, em face da profundidade exigida para reencontrar fundamento à afirmação do indivíduo, o pensamento filosófico orientou-se para os limites do ser humano como indivíduo, para o seu desaparecimento como significação, para a morte.

Dito em outras palavras, na perspectiva da posição pascaliana distinguem-se duas linhas complementares de reflexão. Por um lado, a morte introduz um limite essencial na medida em que toda a significação individual é necessariamente reduzida a nada, à negação do ser, com o desaparecimento do indivíduo que lhe dava o fundamento. Por outro lado, contrastado pelas instituições ou pelo grupo social, o comportamento individual se apresenta como a ausência de toda a forma de realidade transindividual que tenha significação do ponto de vista do caráter de existência eterna. Ademais, no prolongamento desta ausência, o comportamento individual se apresenta como dificuldade para encontrar na ação externa uma significação plena e válida. Daí cabe destacar que a ação do indivíduo não ultrapasse a ideologia do existente.

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A Posição Filosófica Pascaliana e o Pensamento Existencialista

A posição filosófica pascaliana terá desdobramento no pensamento estético e existencialista do Século XX.

►Desse modo compreendida a posição pascaliana terá desdobramento no pensamento estético e existencialista do Século XX, deixando ver as duas orientações seguintes: (a) – que a vida autêntica é impossível no mundo (em face daquela ausência); (b) – que por autenticidade deve-se entender não só a consciência clara dessa impossibilidade em viver uma vida autêntica, mas também a conseqüente recusa voluntária e radical [15].

A teoria psicossociológica tem ponto de partida nesses dois desdobramentos da posição pascaliana como referência básica para compreender a exclusão recíproca da ação significativa e do risco de morte sustentando a estrutura de consciência literária em obra no tipo de romance com “herói superado do exterior”.

Deste ponto de vista se aclaram as orientações filosóficas indispensáveis a qualquer estudo sobre o problema do individualismo moderno no Século XX.

►Com efeito, as orientações filosóficas do “jovem” Lukacs e de Heidegger afirmariam que a existência individual autêntica pode se realizar na ação significativa histórica. Em acordo com Goldmann, haveria nesses dois filósofos algumas linhas alternativas de viabilidade para a realização individual na ação significativa histórica, seguintes: (a) – a intervenção em estado de realidade de um sujeito transindividual; (b) – a repetição autêntica e não mecânica da atitude e do comportamento de grandes figuras do passado, como sobrevivência do valor do indivíduo para além do desaparecimento do mesmo.

Mas não é tudo. Se a possibilidade de realização autêntica do indivíduo na ação significativa histórica é afirmada, as linhas alternativas assim entendidas fazem com que a referência ao risco de morte tenha um caráter secundário, não passando de uma peculiaridade individual e incapaz de atrair o pensamento do sujeito da ação significativa [16].

Finalmente, na estrutura literária do romance “com herói problemático sendo ultrapassado pelo contexto exterior”, assim formulada pela “exclusão recíproca ação/risco de morte” observa-se a seguinte dinâmica: enquanto o indivíduo vive, a autenticidade de sua vida reside em seu pleno engajamento na ação significativa, sobretudo reside nas suas atitudes propriamente morais, inspiradas pela experiência de uma luta contra todos os obstáculos que se opõem ao esforço humano, tida esta como manifestação reconhecida, digna de aprovação desinteressada.

Neste sentido, a referência ao risco de morte mostra-se uma realidade virtual estranha, cuja atualização enleva retroativamente como mencionado todo o valor à ação do indivíduo que, então, se encontra sozinho, como o homem de Pascal.

Na composição romanesca com herói coletivo, se, por um lado, as buscas individuais são solucionadas e a vida dos indivíduos é inteiramente significativa – são reconhecidos como suportes do caráter de existência eterna – nota-se que, por contra, a ação do grupo inteiro mostra-se problemática.

A ação problemática do grupo

►Mas o caráter de transição para o modelo de ausência de sujeito, observado na literatura de avant-garde é também notado nas modalidades do romance com personagem coletivo que, então, revela-se problemático como o herói individual – personagem que por seu pensamento e atitude é vinculado aos valores qualitativos, mas não inteiramente subtraído à existência da mediação degradante, como já mencionado.

Com efeito, nos romances com herói coletivo a autenticidade é tida possível desde que o indivíduo encontre-se inserido em uma realidade transindividual, capaz de atender para ele às exigências do caráter de existência eterna, o caráter dos valores humanos qualitativos que, justamente por isso são classificados valores transindividuais.

Aliás, cabe lembrar que, do ponto de vista da teoria psicossociológica, cujo quadro de referência e campo de aplicação é o individualismo moderno e seu desgaste como simbolismo social, o foco dos valores transindividuais é uma idéia-força de alcance não transcendente, mas permanente, como o é a idéia de salvação, marcando para o indivíduo o instante em que iria se decidir “de uma vez por todas” se ele seria eternamente reprovado ou salvo.

Daí o caráter de existência eterna penetrando o conjunto dos valores humanos, por isso valores qualitativos. Em virtude desse caráter, como já vimos, o individualismo admite que enquanto o indivíduo existe, ele é valor genérico como indivíduo, ou seja, suporte do caráter de existência eterna: sempre haverá indivíduos humanos perquirindo valores que lhes são próprios, como razão e experiência [17].

Mas a coisa não é assim tão simples. Na composição romanesca com herói coletivo, onde a autenticidade é tida possível, há uma ambigüidade mais complexa. Com efeito, se, por um lado, as buscas individuais são solucionadas e a vida dos indivíduos é inteiramente significativa – são reconhecidos como suportes do caráter de existência eterna – nota-se que, por contra, a ação do grupo inteiro mostra-se problemática.

Quer dizer, constata-se igualmente o personagem que por seu pensamento e atitude é vinculado aos valores qualitativos, mas não inteiramente subtraído à existência da mediação degradante. Ou seja, a ação do grupo inteiro mostra-se problemática não só em razão de seu apego aos valores contraditórios da ação, criados pela comunidade como inserida em uma unidade maior, mas também em razão da “disciplina” (“l’esprit de corps”) no interior do grupo e mais ainda em razão da impossibilidade em conceituar a contradição daí decorrente para o individualismo.

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O Ponto de Vista das Estruturas Reificacionais.

continua…

 

Notas de Fim

[1] Ver Goldmann, Lucien: Pour une Sociologie du Roman, Paris, Gallimard, 1964, 238 págs, pag.49.

[2] Os estudos de Lucien Goldmann centram-se nas obras do grupo dos autores de “avant-garde” nos anos de 1960 – reunindo Ionesco, Beckett, Nathalie Sarraute, Marguerite Duras, Alain Robbe-Grillet. A produção desses autores e grande parte da literatura européia depois de Kafka teriam por conteúdo essencial o tema da ausência, como a impossibilidade do essencial ou ausência de tudo o que poderia ser importante para a vida e a existência dos homens. Cf. Goldmann, Lucien: Pour une Sociologie du Roman, Paris, Gallimard, 1964, 238 págs. Op. cit. / Do mesmo autor: Structures mentales et création culturelle, Paris, Éditions Anthropos ,1970.

[3] Sobre as alternativas excludentes como dispositivo ideológico de dominação burguesa, ver NOTA COMPLEMENTAR 02, no final deste tópico.

[4] Cf. Goldmann, Lucien: “Recherches Dialectiques”, op.cit, pág.242.

[5] Certos autores tratarão esse problema da acessibilidade dos valores em termos de uma sociologie du voeu, correspondendo a noção de consciência possível desenvolvida por Lucien Goldmann. Ver NOTA COMPLEMENTAR 03, no final deste tópico

[6] Isto é, admitindo o acesso aos valores qualitativos como não inteiramente subtraídos à existência da mediação degradante.

[7] Ver Goldmann, Lucien: “Sociologie du Roman”, op.cit. págs.95, 96.

[8] Sobre a afirmação de que a literatura satisfaz certa necessidade cultural não utilitária, ou seja: o valor literário, ver NOTA COMPLEMENTAR 04 no final deste tópico.

[9] Ver: o romance deAndré Malraux intitulado “La Voie Royale“.

[10] Cf. Goldmann, Lucien: “Sociologie du Roman”, op.cit. págs.87, 88.

[11] Cf. Ibid, ibidem.

[12] Cf. Ib, ibidem, pág. 95.

[13] Cf. Ib, ibidem, págs. 89 sq.

[14] Cf. Goldmann, Lucien: “Recherches Dialectiques”, op.cit.

[15] Cabe lembrar que o existencialismo de diferentes tendências representou uma tentativa de resistência em nome do Eu, do outro, das coletividades concretas em face da tecnificação ou tecnocratização do saber. Cf. Gurvitch, G.: “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, pág. 233. Ver tb Lumier, Jacob (J.): “Técnica, Tecnificação, Sociologia do Conhecimento”, e-book pdf, 101 págs, Web da OEI, 2008, enlaces: http://www.oei.es/noticias/spip.php?article3550     http://www.oei.es/salactsi/matriz1.pdf

[16] Cf. Goldmann, Lucien: “Sociologie du Roman”, op.cit. págs. 92 sq.

[17] Neste sentido, o individualismo assimila e reforça o subjetivismo idealista da filosofia do século XVIII (Rousseau, Kant), onde se projetava o dogma de um Eu genérico idêntico em todos.

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