Obstáculos à Leitura e à atividade do escritor

Posted on março 16, 2010

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Sociologia da literatura

Por

Jacob (J.) Lumier

Autor de ensaios sociológicos

Quando se observa a evolução negativa do número das livrarias no Anuário Estatístico da Cultura 2009 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE) tem-se a constatação de que o livro é artigo de luxo e por consequência a literatura uma atividade supérflua, coisa de esnobes.

É claro que a escassez no desenvolvimento e a baixa escolaridade são fatores consideráveis nesse restrito círculo de livrarias, mas existem obstáculos intelectuais à valorização da leitura, das obras literárias e ao estímulo à atividade do escritor. Para tornar esse quadro menos desfavorável, cabe passar em crítica a imagem supérflua da literatura.

Com efeito, do ponto de vista histórico e sociológico, as dificuldades antepostas a compreensão justa da literatura ligam-se à orientação intelectual do chamado espírito burguês afirmando a independência total da cultura e da arte em relação às formas sociais, de tal sorte que a interpretação da arte não estaria contida na vida social.

Daí surge o obstáculo da interdição pela sociedade. O receio de um efeito literalmente ameaçador da ordem torna o fato literário negado na sua significação, combatido como extravagância.

Em tal receio distingue-se uma espécie de respeito ao fato literário envolvendo-o em certo mistério. Desta atitude provêm duas representações desfavoráveis à literatura, seguintes: (a) – uma, a chamada teoria do gênio, que interpreta a figura do autor em termos do inexplicável e inesperado no concerto das paixões e dos pensamentos humanos; (b) – outra, referida à elaboração da obra, é a teoria romântica da inspiração, do mistério da criação, etc.

Pode-se observar como se sabe algumas tentativas de elucidar o fato literário que, não obstante o pensamento objetivo, pouco o favoreceram. Umas porque mantiveram a opacidade intocável do fato literário;outras porque acentuaram a sua redução.

No primeiro caso, resume-se a tentativa mais conhecida que foi a de Taine, incluindo os seus colaboradores. No segundo caso, nota-se a tentativa marxista e a psicanalítica.

Comenta-se que Taine esperava fundamentar uma ciência positivista e determinista da literatura tomando como motivos de explicação a descoberta em cada escritor de uma suposta “faculdade mestra”.

Ao tentar demonstrar a gênese dessa faculdade mestra seu dogmatismo é flagrante na analogia com as ciências naturais.

Observam os estudiosos que no prefácio de sua obra “La Fontaine et ses Fables”,o ponto de vista naturalista vem a ser aplicado ao homem, tomando-o como um animal de espécie superior que produz as filosofias e os poemas pouco mais ou menos como os bichos da seda tecem os seus casulos e as abelhas elaboram os favos. Daí surgiu uma abordagem na qual a obra literária, tida como mistério inefável e impenetrável, vem a ser reportada a um fator mais ou menos arbitrariamente escolhido.

Em relação à tentativa marxista, por sua vez, se lhe reconhece o mérito sociológico de empreender a inter-relação das obras literárias e das suas produções com os quadros sociais. Todavia a tentativa de reduzir a literatura a um fato de conhecimento mediante a tipologia das visões de mundo atribuída a Georges Lukacs é censurada por desprezar a especificidade do fato literário.

Ao traçar um método comum a todas as obras de pensamento tornou-se inevitável por conseqüência abandonar o que distingue precisamente o fato literário dos outros fatos humanos. Censura idêntica se aplica à tentativa psicanalítica, em cuja abordagem necessariamente se tem de partir sempre de uma redução implicando negação da especificidade.

Por contra, a compreensão da literatura implica a distinção entre fato literário e fato de conhecimento.O fato literário é para uma sociedade como disse um modo de tomar consciência de si própria em suas aspirações. Daí o tabu da excentricidade, mas que acentua exatamente a especificidade do fato literário e faz reconhecer no mesmo um fato de valor não confundível às suas condições genéticas nem às suas condições de permanência, nem tampouco às intenções do seu criador, nem enfim às suas repercussões psicossociais.

Aquilo que há na obra literária pelo qual se chega à afirmação de que a literatura satisfaz certa necessidade cultural não utilitária, ou seja: o valor literário, é inicialmente o elemento que difere um livro de poemas ou um romance de um jornal.

Sem dúvida, o qualificativo e o valor que ocorrem imediatamente aos leitores, pelo que eles identificam o fato literário, não são o mesmo para todos os públicos. A identificação do fato literário seja como romance ou poema ou ensaio se define também socialmente e não apenas pelo método, sem que isto impeça tomar-se o valor literário como ponto de partida da reflexão elucidativa.

Se um fato literário pode nos ensinar certas coisas e se a literatura é por isso uma das técnicas de comunicação social sabe-se que as informações dadas pelos escritores não atendem à finalidade de uma enquête. Embora possa admitir-se que o autor tenha a intenção de ensinar-nos certas coisas, as intenções do autor de obra literária são evasivas ou mudam de rumo no decurso da atividade. O que diz é  quase tão importante quanto a forma de dizê-lo, forma esta que por sua vez influi sobre o conteúdo acabando por transformá-lo.

Há uma reconstrução imaginativa ou um ardil (ditado por razões sociais) na informação elaborada pelo escritor. A finalidade de uma obra literária não é a mesma de um documento, nada obstante admite-se possível interpretar as informações dadas pelos escritores, desde que seja considerada a finalidade estética da obra literária, na qual não se trata de representar a realidade social – para o que os jornais da época seriam superiores a todos os romances do mesmo período. A importância de Goethe ou de Shakespeare não provém de sua filosofia, mas de terem criado um objeto novo que é o objeto literário.

Desde o ponto de vista da finalidade literária em face dos esforços de interpretação, o fato literário não pode ser reduzido a significações sociais nem a significações psicológicas para compreender, ajuizar e classificar as obras. A significação considerada como atributo de uma visão de mundo mais ou menos coerente (uma weltanschaung) levaria a que os escritores surgiriam com espantosa insignificância ao lado dos pensadores.

Por contra, as noções de objeto literário e eficácia estética levam a repensar em outro modo a significação aplicada ao fato literário. Como disse, a importância de Goethe ou de Shakespeare não provém da sua filosofia, mas de terem criado um objeto novo que é  o objeto literário.  Nesse objeto se encontram dotadas da máxima eficácia estética certo número de idéias (uma visão de mundo), mas também certo número de emoções.

Se, favorecendo a especificidade do fato literário como configuração de valor, admitir que a eficácia esteja mais próxima da afetividade do que da idéia teríamos confirmada a constatação de que algumas idéias afetivamente muito significativas podem ser infinitamente mais eficazes do que uma “weltanschaung”.

Nesta perspectiva e ao se orientar para a apreensão do desejado em literatura há que assumir um ponto de vista interior ao fato literário, trazendo para o campo da análise e interpretação as significações que a própria fantasia comporta ou elucida. Antes de nos ensinar coisas, tais significações são aquelas de que nos ocupamos: a fantasia elucida de maneira tão indireta e tão variada que todos os “achados”, disfarces, fugas, subterfúgios estranhos devem ocupar-nos pelo menos tanto quanto podem ensinar-nos.

Alguns sociólogos designam essa orientação, esse ponto de vista interior ao fato literário como “sociologie du voeu“, uma sociologia da aspiração como prece, do engajamento como promessa ou juramento, entendida como orientação que visa dar conta das aspirações tendenciais. Portanto, sendo um fato de valor, o objeto literário deve ser examinado como composto não somente de um elemento de significação, mas um complexo de jubilo, de relação com o criador, de relação com os leitores.


Rio de Janeiro, 16 de Março 2010

Jacob (J.) Lumier

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